Era uma noite de Lua muito, mas muito brilhante. Daquelas Luas que você só vê quando não tem mais ninguém perto para você provar que aquela era a Lua mais linda que você já tinha visto. O lugar, era perto de uma ponte, quase de baixo, mas não o suficiente para tapar o reflexo da luz. Era uma ponte feia, era um lugar intimidador. Eu sabia que ali de baixo daquela ponte os ladrões aproveitavam e surpreendiam vítimas. Eles já tinham oferecido seus serviços duas vezes para mim naquele local. Mas naquela noite não importava, pois a Lua era a peça mais reluzente daquele quadro, e espantava qualquer mal dali. Eu havia a chamado para alguma coisa naquela noite, algo como nos revermos, conversarmos depois de tanto tempo que não nos víamos. Não lembro para onde íamos, mas sei que precisamos passar por aquela ponte, àquele horário. A verdade é que sob a ponte ficava o caminho para a minha casa, com certeza estávamos indo pra lá. Justo quando chegou a ponte, estávamos cansados, com frio, e com medo de continuar. Foi aí que percebi o cenário em que estávamos: a rua estava deserta, havia rachaduras por todo o asfalto e pela calçada, e carros velhos, quase enferrujados e sem rodas nem vidros estavam por toda parte nas vias. Era tudo perfeitamente feio, maravilhosamente fora do lugar. Eu acho que os semáforos funcionavam normalmente, as árvores conversavam com o vento quando balançavam e o frio cortava o que estivesse em seu caminho. E claro, a lua lá. Eu conversava entusiasmado com ela, mas com um frio na barriga. Mas eu meio que sabia que a gente ia passar ali, e sabia também que todos íamos parar para descansar (claro, o sonho era meu oras). Quando digo todos, é porque lembro de mais alguém conosco. Mas não era ninguém importante. Era alguma amiga dela só pra fazer companhia, só um disfarce que usei. Mas é lógico, se a chamasse sozinha, iam ficar claras minhas intenções, e iam parecer exageradas ao ver de qualquer um. Talvez não ao ver dela, ela era capaz de ser a única de entender o que aquilo significaria, mas eu preferi não arriscar. Ela tinha acabado de voltar com o ex. Isso me incomodava, junto com um monte de coisas sobre mim. Mas eu respeitava, não queria de jeito nenhum fazer algo injusto com ela naquele momento. Mas ela sabia porque havia a chamado para me ver. Nós, cansados, fomos a um carro abandonado próximo... não tinha nenhum vidro, e aquele vento gelado convertendo o metal do carro em lâminas mortais de frio eram inevitáveis. Mas era o único refúgio que tínhamos. Conversamos bastante dentro do carro. Mas a única coisa que lembro era de nós dois, ela no banco do motorista e eu no do passageiro, quando conversávamos, tínhamos o rosto virado um pro outro. E a Lua continuava ali. Era perfeito, tudo que eu precisava era saber que você estava bem.
Mentira.
Eu já sabia que você estava bem... o que eu precisava mesmo era de um beijo seu. Aquele lábio... tão suave, e dosado com um abraço.
Silêncio.
A gente ficou em silêncio um pouco. E mais um pouco... A essa hora eu já tinha falado porque a tinha chamado, revelei o que eu sentia. E eu tinha certeza que podia beijá-la ali que nada aconteceria. Ela não recusaria, com certeza não recusaria. Mas aí eu teria que pensar depois, no que eu havia a obrigado a fazer, nas circunstância em que estava. Não era justo, pois ela estava feliz já com ele. Deixá-la confusa, ou carregando um peso desses. Foi extremamente difícil não segurá-la como se devia naquele frio, mas simplesmente ofereci minha jaqueta a ela. Alguns instantes antes de ela dormir, ainda lembro de olhar para todos os lados, com medo de que algum ladrão chegasse ali perto. Eu seria seu vigia, para que ela dormisse tranquila. Mas não senti seus lábios, de modo algum.
Eu acordei com uma lágrima.