Era no presente, mas não posso ter certeza do ano... se não me engano era um presente um pouco mais no futuro. Eu e meus amigos, para algum trabalho acadêmico tivemos acesso a um software que nos permitia voltar no tempo, mas era possível apenas um de cada vez. Portanto, um amigo nosso se voluntariou a ser o primeiro.
Passaram-se vários minutos e ele não havia retornado, então ficamos preocupados. Seria necessário resgatá-lo, uma vez que somente ele tinha a possibilidade de nos contatar e não o contrário. E para um resgate, seria preciso ir duas pessoas, mas em situações desse risco era necessário e permitido compartilhar a viagem entre dois indivíduos. Mas eis o problema: a partir do momento em que duas pessoas, dois objetos ou quaisquer dois ou mais corpos contendo massa regredissem cronologicamente simultaneamente, suas existências eram interligadas e síncronas. Ou seja, se um de nós deixasse de existir ali, o outro automaticamente também deixaria de existir. E pra piorar nossa situação, o software que usávamos para a viagem temporal não tinha a precisão necessária para nos mandar de volta para o exato ponto em que o primeiro viajante parou. Seria necessário que voltássemos para o extremo preciso segundo, milissegundo ou até mesmo o mesmo nanosegundo em que o nosso amigo pulara, pois se voltássemos antes, o desvio da linha temporal que criaríamos poderia não ter intersecção com o desvio da linha feita na primeira viagem. Então, o que fizemos foi voltar para um passado posterior ao passado escolhido pelo nosso amigo, assim, voltaríamos para o desvio que ele mesmo havia criado.
Certo, decidimos que eu e mais uma pessoa iríamos atrás de nosso amigo no passado, e o lugar mais próximo que o programa de computador poderia nos deixar eram duas semanas após o ponto da primeira viagem. Procuraríamos por pistas que nos levassem a ele, talvez consultássemos onde seu cartão havia sido usado e o traríamos de volta. Porém, ao primeiro instante que chegamos ao passado (e agradeci que meu amigo não tinha escolhido uma data tão exagerada, apenas um ano e dois meses atrás) estávamos em um vagão do metrô, e na primeira estação percebi que havia algo de errado. Os carros do metrô eram flutuantes, e ao chegar na estação, perto da hora de desembarcar o vagão começava a se dividir em várias cabines, para facilitar e agilizar o desembarque. Era genial e me deixou pensando por um minuto sobre aquela maravilha, mas aquilo não devia estar ali. Não estávamos no futuro, então como o futuro havia chegado? Eu e a outra pessoa que viera para o resgate chegamos rapidamente à conclusão que o nosso amigo primeiro viajante tinha tomado ações drásticas nesta época. Não havia dúvidas, os jornais apontavam para a exata data em que o software nos mandou, então não havia como o programa ter falhado. Por outro lado, não estávamos no passado. Não o que conhecíamos.
Isso só nos fez nos apressar em nossa missão. Antes que as coisas piorassem, tínhamos de parar com isso tudo. Então pensamos por onde poderia ter passado o nosso amigo, e fomos até sua casa. Ou melhor, sua ex-casa, porque ao chegarmos lá, no lugar de sua enorme moradia havia um condomínio. E com certeza não teríamos acesso à lista de moradores, por norma de segurança deles (além disso, éramos suspeitos em todos os lugares, pois nossas roupas assustavam as pessoas). Fomos aonde ele costumava ir, casa de amigos, bares, e tudo mais o que pensamos. Fomos até a biblioteca, mas apenas por desespero, pois sabíamos que ele não era um cara de livros. Mesmo assim, resolvemos ver se havia alguma pista sua por lá. Chegamos à bibliotecária e pedimos gentilmente para ela verificar se o nosso amigo havia pegado algum livro, e surpreendentemente ele havia. Era um livro de física, que me era familiar, mas não lembrava de onde. A mulher nos falou a estante e prateleira que se encontraria o livro e nos apressamos para chegar lá. Não sabíamos se era o nervosismo que nos atrapalhava ou qualquer outro fator, mas não encontrávamos o livro de jeito nenhum. Voltamos à bibliotecária e pedimos para ela verificar se o livro que havia nos indicado estava certo. Ela começou a navegar no sistema da biblioteca e em poucos segundos soltou aquele "Hum" de que algo não é como deveria ser. Ficamos intrigados, e logo outro "Hummm" mais forte e elouquente apareceu em seus murmúrios. Até que ela foi em direção a estante, deu uma rápida olhada e voltou. Ela disse "o livro que o amigo de vocês alugou não está na biblioteca. Porém, também nunca esteve, pois não há registros dele ter sido alugado antes, nem que tenha sido roubado daqui. E se ele não está lá na prateleira, é porque ele nunca veio parar aqui. Talvez alguma falha nossa de sistema, nos desculpem, por favor."
"Não há problema, moça." - respondi. "Mas quem é o autor desde livro?", perguntei, e assim que ela respondeu, olhei para a minha parceira de resgate: " O PROFESSOR! " gritamos. Agradecemos à bibliotecária e voamos direto para a faculdade, para a mesma sala em que estava o computador do software que usamos para viajar horas atrás. Ao abrir a sala, nosso professor estava lá. Ele coordenara várias pesquisas com o software, mas haviam algumas adaptações e atualizações que deveriam ser feitas que impediam a regressão temporal um ano antes de nosso trabalho acadêmico. E o professor estava mexendo no programa neste exato momento, aparentemente funcionando. Quando ele nos viu entrar não ficou surpreso. Ele fez uma cara de 'eu já sabia que vocês viriam aqui, mas não adianta nada mais agora'. E tentamos entender tudo com olhares, mas aparentemente eles não contavam a história toda, nem o paradeiro de nosso amigo. Conversamos com o nosso professor, e ele confirmou que o programa estava funcionando, e após perguntarmos como, ele nos esclareceu sobre a situação inteira.
Primeiramente, duas semanas atrás de onde estávamos, nosso amigo chegou à faculdade contando ao professor os detalhes restantes que faltavam para tornar a viagem ao passado possível. Os dois fizeram testes e conseguiram fazer o programa funcionar. Porém o professor não sabia que era o nosso amigo que viera do futuro, mas achou que era o nosso amigo do passado, ou melhor, do presente naquele momento em que nos encontrávamos. Ao chegar dois dias depois na faculdade, o professor iniciou o software e notou que uma pessoa havia utilizado ele, e foi para um tempo 7 anos atrás de onde nos encontrávamos, que foi quando o projeto do programa surgiu. O professor nos contou também (e nós já sabíamos) que o viajante era fissurado pelo futuro e que ele faria o possível para terminar a maquina de viagem ao tempo o quanto antes cronologicamente falando.
Fiquei revoltado por nosso amigo ter feito isso, pois isso significava coisas ruins. Várias. Naquele rítmo, ele iria terminar a máquina cronológica antes de seu tempo, cada vez mais e mais precoce, mas tudo isso a fim de que? E foi aí que liguei tudo: nosso amigo estava viajando cada vez mais e mais para o passado, mas na verdade seu objetivo era ir para o futuro. Não ir para o futuro de fato, mas sim criar um. Lembrei de quando cheguei àquele tempo e o lance todo do metrô. Agora fazia sentido. Na verdade, o 'futuro' havia chegado pois ele adiantara muito conhecimento tecnológico para gerações anteriores... é como se tivesse levado todo o conhecimento científico que tínhamos na época a que eu e minha parceira pertencíamos direto para o passado, e a partir dali este conhecimento foi se desenvolvendo, fazendo com que quando chegasse ao presente, já estivesse bem mais adiantado... e aí se explica toda sua história. Isso me fez me preocupar: se o futuro viera antes, mas na verdade ainda era passado, quando chegássemos ao nosso presente, em que futuro já estaríamos? Quão adiantadas estariam as coisas?
Além disso, perguntei ao meu professor o que ele queria com essa história toda, se só podia regredir no tempo, e nunca avançar. Ele me respondeu "não sabemos ao certo se é ou não possível avançar cronologicamente, mas ele nos deixou presos em um tempo em que isso é certamente impossível. Se for possível, só o tempo nos dirá e se não for, somos vítimas de um ato de egoísmo."