terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Onde está o viajante?

Era no presente, mas não posso ter certeza do ano... se não me engano era um presente um pouco mais no futuro. Eu e meus amigos, para algum trabalho acadêmico tivemos acesso a um software que nos permitia voltar no tempo, mas era possível apenas um de cada vez. Portanto, um amigo nosso se voluntariou a ser o primeiro.
Passaram-se vários minutos e ele não havia retornado, então ficamos preocupados. Seria necessário resgatá-lo, uma vez que somente ele tinha a possibilidade de nos contatar e não o contrário. E para um resgate, seria preciso ir duas pessoas, mas em situações desse risco era necessário e permitido compartilhar a viagem entre dois indivíduos. Mas eis o problema: a partir do momento em que duas pessoas, dois objetos ou quaisquer dois ou mais corpos contendo massa regredissem cronologicamente simultaneamente, suas existências eram interligadas e síncronas. Ou seja, se um de nós deixasse de existir ali, o outro automaticamente também deixaria de existir. E pra piorar nossa situação, o software que usávamos para a viagem temporal não tinha a precisão necessária para nos mandar de volta para o exato ponto em que o primeiro viajante parou. Seria necessário que voltássemos para o extremo preciso segundo, milissegundo ou até mesmo o mesmo nanosegundo em que o nosso amigo pulara, pois se voltássemos antes, o desvio da linha temporal que criaríamos poderia não ter intersecção com o desvio da linha feita na primeira viagem. Então, o que fizemos foi voltar para um passado posterior ao passado escolhido pelo nosso amigo, assim, voltaríamos para o desvio que ele mesmo havia criado.
Certo, decidimos que eu e mais uma pessoa iríamos atrás de nosso amigo no passado, e o lugar mais próximo que o programa de computador poderia nos deixar eram duas semanas após o ponto da primeira viagem. Procuraríamos por pistas que nos levassem a ele, talvez consultássemos onde seu cartão havia sido usado e o traríamos de volta. Porém, ao primeiro instante que chegamos ao passado (e agradeci que meu amigo não tinha escolhido uma data tão exagerada, apenas um ano e dois meses atrás) estávamos em um vagão do metrô, e na primeira estação percebi que havia algo de errado. Os carros do metrô eram flutuantes, e ao chegar na estação, perto da hora de desembarcar o vagão começava a se dividir em várias cabines, para facilitar e agilizar o desembarque. Era genial e me deixou pensando por um minuto sobre aquela maravilha, mas aquilo não devia estar ali. Não estávamos no futuro, então como o futuro havia chegado? Eu e a outra pessoa que viera para o resgate chegamos rapidamente à conclusão que o nosso amigo primeiro viajante tinha tomado ações drásticas nesta época. Não havia dúvidas, os jornais apontavam para a exata data em que o software nos mandou, então não havia como o programa ter falhado. Por outro lado, não estávamos no passado. Não o que conhecíamos.
Isso só nos fez nos apressar em nossa missão. Antes que as coisas piorassem, tínhamos de parar com isso tudo. Então pensamos por onde poderia ter passado o nosso amigo, e fomos até sua casa. Ou melhor, sua ex-casa, porque ao chegarmos lá, no lugar de sua enorme moradia havia um condomínio. E com certeza não teríamos acesso à lista de moradores, por norma de segurança deles (além disso, éramos suspeitos em todos os lugares, pois nossas roupas assustavam as pessoas). Fomos aonde ele costumava ir, casa de amigos, bares, e tudo mais o que pensamos. Fomos até a biblioteca, mas apenas por desespero, pois sabíamos que ele não era um cara de livros. Mesmo assim, resolvemos ver se havia alguma pista sua por lá. Chegamos à bibliotecária e pedimos gentilmente para ela verificar se o nosso amigo havia pegado algum livro, e surpreendentemente ele havia. Era um livro de física, que me era familiar, mas não lembrava de onde. A mulher nos falou a estante e prateleira que se encontraria o livro e nos apressamos para chegar lá. Não sabíamos se era o nervosismo que nos atrapalhava ou qualquer outro fator, mas não encontrávamos o livro de jeito nenhum. Voltamos à bibliotecária e pedimos para ela verificar se o livro que havia nos indicado estava certo. Ela começou a navegar no sistema da biblioteca e em poucos segundos soltou aquele "Hum" de que algo não é como deveria ser. Ficamos intrigados, e logo outro "Hummm" mais forte e elouquente apareceu em seus murmúrios. Até que ela foi em direção a estante, deu uma rápida olhada e voltou. Ela disse "o livro que o amigo de vocês alugou não está na biblioteca. Porém, também nunca esteve, pois não há registros dele ter sido alugado antes, nem que tenha sido roubado daqui. E se ele não está lá na prateleira, é porque ele nunca veio parar aqui. Talvez alguma falha nossa de sistema, nos desculpem, por favor."
"Não há problema, moça." - respondi. "Mas quem é o autor desde livro?", perguntei, e assim que ela respondeu, olhei para a minha parceira de resgate: " O PROFESSOR! " gritamos. Agradecemos à bibliotecária e voamos direto para a faculdade, para a mesma sala em que estava o computador do software que usamos para viajar horas atrás. Ao abrir a sala, nosso professor estava lá. Ele coordenara várias pesquisas com o software, mas haviam algumas adaptações e atualizações que deveriam ser feitas que impediam a regressão temporal um ano antes de nosso trabalho acadêmico. E o professor estava mexendo no programa neste exato momento, aparentemente funcionando. Quando ele nos viu entrar não ficou surpreso. Ele fez uma cara de 'eu já sabia que vocês viriam aqui, mas não adianta nada mais agora'. E tentamos entender tudo com olhares, mas aparentemente eles não contavam a história toda, nem o paradeiro de nosso amigo. Conversamos com o nosso professor, e ele confirmou que o programa estava funcionando, e após perguntarmos como, ele nos esclareceu sobre a situação inteira.
Primeiramente, duas semanas atrás de onde estávamos, nosso amigo chegou à faculdade contando ao professor os detalhes restantes que faltavam para tornar a viagem ao passado possível. Os dois fizeram testes e conseguiram fazer o programa funcionar. Porém o professor não sabia que era o nosso amigo que viera do futuro, mas achou que era o nosso amigo do passado, ou melhor, do presente naquele momento em que nos encontrávamos. Ao chegar dois dias depois na faculdade, o professor iniciou o software e notou que uma pessoa havia utilizado ele, e foi para um tempo 7 anos atrás de onde nos encontrávamos, que foi quando o projeto do programa surgiu. O professor nos contou também (e nós já sabíamos) que o viajante era fissurado pelo futuro e que ele faria o possível para terminar a maquina de viagem ao tempo o quanto antes cronologicamente falando.
Fiquei revoltado por nosso amigo ter feito isso, pois isso significava coisas ruins. Várias. Naquele rítmo, ele iria terminar a máquina cronológica antes de seu tempo, cada vez mais e mais precoce, mas tudo isso a fim de que? E foi aí que liguei tudo: nosso amigo estava viajando cada vez mais e mais para o passado, mas na verdade seu objetivo era ir para o futuro. Não ir para o futuro de fato, mas sim criar um. Lembrei de quando cheguei àquele tempo e o lance todo do metrô. Agora fazia sentido. Na verdade, o 'futuro' havia chegado pois ele adiantara muito conhecimento tecnológico para gerações anteriores... é como se tivesse levado todo o conhecimento científico que tínhamos na época a que eu e minha parceira pertencíamos direto para o passado, e a partir dali este conhecimento foi se desenvolvendo, fazendo com que quando chegasse ao presente, já estivesse bem mais adiantado... e aí se explica toda sua história. Isso me fez me preocupar: se o futuro viera antes, mas na verdade ainda era passado, quando chegássemos ao nosso presente, em que futuro já estaríamos? Quão adiantadas estariam as coisas?
Além disso, perguntei ao meu professor o que ele queria com essa história toda, se só podia regredir no tempo, e nunca avançar. Ele me respondeu "não sabemos ao certo se é ou não possível avançar cronologicamente, mas ele nos deixou presos em um tempo em que isso é certamente impossível. Se for possível, só o tempo nos dirá e se não for, somos vítimas de um ato de egoísmo."

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Estou sentado tomando um café, vejo as pessoas passarem, indo e vindo com sua pressa para pegar o trem. Algum individuo está nos armários da estação, pegando alguma coisa. Não lembro o que era, apenas que brilhava muito.
Eu era quem escolhia as vítmas, talvez pela cara de descuidadas, talvez pelos movimentos espaçosos que faziam, gerando grandes brechas; um cara gordo que gesticulava bastante quando falava estava passando, e era a presa perfeita: como era corpulento, vestia um enorme casaco de lã contendo alguns vários bolsos, era fácil de esbarrar num sujeito daqueles (o que acontecia com várias pessoas mesmo sem querer) e ele vestia um chapéu peculiar. Não era um panamá, ou um fedora encontrados aos montes pelas cabeças vistas na estação; não, este vinha com as duas iniciais 'H.L.' bordadas sutilmente. Ao que vi do meu posto e pelo olhar de meu parceiro, aquele chapéu era uma legítima peça da alfaiataria real da Hungria, um Hugo Liudolfing do século XVIII. E valioso, muito valioso.
O fato de ele andar à mostra com uma raridade daquelas (mesmo que ninguém prestasse atenção aos detalhes) me fazia imaginar que dentro dos bolsos do casaco havia coisas melhores ainda.
De repente o cara dos armários deixou um relógio cair. Aquilo reluzia mais que a própria luz, e se ele quis ser discreto, não conseguiu. Mesmo assim, o gordo viu o relógio caindo, e como o nobre que era, devolveu para o moço. Opa, seu relógio caiu, cuidado hein amigão, na próxima não sei se devolvo hein. Risadinhas de gente rica. Eu chego, esbarro nele, peço desculpas e pronto, tenho algo em meus bolsos que pertencia ao gordão. Pertencia, agora é meu e do cara do armário, a famosa isca.
Sempre trabalhei em duplas em pequenos golpes, e nunca tive problemas... quanto menor a operação, menos espaço para falhas, menos gente pra coordenar, e assim vai. Mas ultimamente eu comecei a fazer uns trabalhos maiores, e de quadros, vasos, escultaras foi onde cheguei onde estou: no escritório do detetive mais fodido que eu conhecia, o cara que sempre esteve na minha cola, apenas dois passos atrás de mim, e agora, ele era o esperto da história.
Daqui a alguns minutos eu seria transferido para o presidio na cidade ao lado, e atravessaria as montanhas rumo à prisão em um furgão da polícia local. Eu seria escoltado por dois Lamborghinis e um carro dos oficiais, e realmente foi um toque de Houdini com Copperfield quando eu consegui passar do furgão para o lamborghini da frente sem deixar que os oficiais percebessem. O furgão estava em uma das subidas mais íngremes e começou a balançar de um lado pro outro, depois, parece que tentou fugir da rota planejada e depois começou a acelerar muito. O Gallardo de trás e o carro dos oficiais cercaram o furgão e na frente eu só continuei dando cobertura. Quando todos paramos para ver o que estava acontecendo ali dentro, acelerei ao máximo o carro que eu dirigia, e os velhos e senis oficiais perceberam o acabava de ocorrer: eu havia dado um golpe neles também. Em instantes o maldito detetive que tinha me prendido assumiu a direção do único carro bom que restara e saiu em perseguição ao meu. Quando já estávamos quase no cume da montanha, os dois paramos perto de uma linha do trem que havia ali.
Nao ficamos falando muito, eu só agradeci pela ajuda e ele falou para eu calar a boca. Justo. Então, quando o trem passou, subi nele com a sutileza de Mary Poppins e prosegui viagem até atravessar a fronteira, onde eu já não era mais problema daqueles bastardos de há pouco.
Desembarcando na plataforma e rumo à saída da estação, vi um cara nos armários da estação praticamente jogando um objeto chamativo em minha frente. Olhei para o lado e ali estava seu parceiro vindo em minha direção, e com a minha cara os dois já perceberam o erro que tinham cometido. Apenas virei para o cara dos armários e balancei o indicador negativamente, dizendo 'ã-ã, não'. Passei pelo parceiro dele e saía da estação, quando o sonho parecia voltar para começo.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Celebr./y Liq. ®

Estava em um cenário familiar. Nunca tinha estado lá, mas de tanto que conhecia, eu sentia que poderia andar de olhos fechados pelo castelo. Era feito de mármore escuro e frio. E perturbador pra alguns, é claro. Câmaras isoladas umas das outras faziam fila pelos corredores do local, abrigando correntes, mesas de madeira bem velha e alguns brinquedos. Não, aquilo não era a Disneilândia, apesar de achar que a Cinderela ou a Branca-de-Neve seriam ótimas convidadas. Os brinquedos não divertiam em nada aos visitantes, apenas à mim, e tenho que admitir meu egocentrismo. Mas tudo era para um bem maior... e se ao menos não os divertiam, colocavam-os para dormir, assim como um móbile. A grandiosidade da fortaleza era proposital. Aquela, era uma fábrica. Talvez de desejos, sonhos, ou até mesmo odisséias individuais geradas na cabeça dos consumidores.
Ou uma fábrica de elixir.
Bom, não garantimos uma eternidade duradoura. De fato ela passa rápido, mas serão os seus melhores instantes. Vindo do porão do castelo, onde as caldeiras se encontram, um aroma, talvez tóxico, pois não testamos ainda, invade as narinas dos hóspedes, passa por cada vértebra deixando um calafrio maior que o outro e chega até os pés, sumindo como um devaneio. Eles me contaram que de começo o cheiro é bom como o perfume de Zeus e sentiam a glória de uma platéia vibrante ovacionando passando pelas narinas. Aí, se lembravam do palco, das câmeras, das luzes e de suas limosines. Mas assim que eles enxergavam aquela liga de cobre e estanho quase enferrujada, tenho certeza que era pior do que a maior vaia pública possível. O mesmo efeito ocorria quando viam as cordas, os fios elétricos, os ganchos e as serras. Aparentemente não se entimidavam com água ou palitos, até que estes últimos o encostavam e proporcionavam dores mais agudas que um tenor.
Numa corporação deste nível, limpeza era indispensável. Resíduos eram sempre descartados da maneira mais próxima que podíamos de cumprir a lei, e os líquidos, posso garantir que eram bem aproveitados. Cada mL, cada gota, cada MOLÉCULA era bem vinda, mediante à raridade de nosso ingrediente principal. Sinceramente, era diferente do que a unanimidade pensava (Claro, a unanimidade é burra!). Ele não era dourado nem prateado. Era vermelho e reluzia pouco, assim como qualquer outro. A viscosidade variava de acordo com a fonte, mas o que poucos sabiam era que o gosto era extremamente forte, diferente do tipo comum. Nem meus cozinheiros, nem meus "alquimistas" descobriam o porque disso, mas era um fato e eu, dono daquele empreendimento, apenas tirava proveito disso. Fazia o que qualquer um faria; exatamente, eu era qualquer um, e por isso mesmo não estava preso àquelas mesas e correntes.
Tudo na vida tem um preço, mas não te contaram que também tem um sabor. O preço pela sua glória era a vida, e o sabor, maravilhoso.
Talvez depois de tudo isso, você se pergunte como eu sei disso, e suspeite que sou um membro da família dos Phyllostomidae, um Desmodus Rotundus. Um drácula da vida. Mas não, eu não sou nem acredito nessa babozeira. Depois que estes viraram coadjuvantes em contos de fadas adolescentes, perdi a esperança em sua existência.
Eu sou apenas alguém que teve uma inspiração onírica. Um delírio desvairado. Uma epifania reveladora. E esta, era minha obra-prima... o novo e refrescante; o desejado e extravagante; senhoras e senhores, apresento-lhes o Celebrity Liquor®.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Ladrões da Lua

Era uma noite de Lua muito, mas muito brilhante. Daquelas Luas que você só vê quando não tem mais ninguém perto para você provar que aquela era a Lua mais linda que você já tinha visto. O lugar, era perto de uma ponte, quase de baixo, mas não o suficiente para tapar o reflexo da luz. Era uma ponte feia, era um lugar intimidador. Eu sabia que ali de baixo daquela ponte os ladrões aproveitavam e surpreendiam vítimas. Eles já tinham oferecido seus serviços duas vezes para mim naquele local. Mas naquela noite não importava, pois a Lua era a peça mais reluzente daquele quadro, e espantava qualquer mal dali. Eu havia a chamado para alguma coisa naquela noite, algo como nos revermos, conversarmos depois de tanto tempo que não nos víamos. Não lembro para onde íamos, mas sei que precisamos passar por aquela ponte, àquele horário. A verdade é que sob a ponte ficava o caminho para a minha casa, com certeza estávamos indo pra lá. Justo quando chegou a ponte, estávamos cansados, com frio, e com medo de continuar. Foi aí que percebi o cenário em que estávamos: a rua estava deserta, havia rachaduras por todo o asfalto e pela calçada, e carros velhos, quase enferrujados e sem rodas nem vidros estavam por toda parte nas vias. Era tudo perfeitamente feio, maravilhosamente fora do lugar. Eu acho que os semáforos funcionavam normalmente, as árvores conversavam com o vento quando balançavam e o frio cortava o que estivesse em seu caminho. E claro, a lua lá. Eu conversava entusiasmado com ela, mas com um frio na barriga. Mas eu meio que sabia que a gente ia passar ali, e sabia também que todos íamos parar para descansar (claro, o sonho era meu oras). Quando digo todos, é porque lembro de mais alguém conosco. Mas não era ninguém importante. Era alguma amiga dela só pra fazer companhia, só um disfarce que usei. Mas é lógico, se a chamasse sozinha, iam ficar claras minhas intenções, e iam parecer exageradas ao ver de qualquer um. Talvez não ao ver dela, ela era capaz de ser a única de entender o que aquilo significaria, mas eu preferi não arriscar. Ela tinha acabado de voltar com o ex. Isso me incomodava, junto com um monte de coisas sobre mim. Mas eu respeitava, não queria de jeito nenhum fazer algo injusto com ela naquele momento. Mas ela sabia porque havia a chamado para me ver. Nós, cansados, fomos a um carro abandonado próximo... não tinha nenhum vidro, e aquele vento gelado convertendo o metal do carro em lâminas mortais de frio eram inevitáveis. Mas era o único refúgio que tínhamos. Conversamos bastante dentro do carro. Mas a única coisa que lembro era de nós dois, ela no banco do motorista e eu no do passageiro, quando conversávamos, tínhamos o rosto virado um pro outro. E a Lua continuava ali. Era perfeito, tudo que eu precisava era saber que você estava bem.
Mentira.
Eu já sabia que você estava bem... o que eu precisava mesmo era de um beijo seu. Aquele lábio... tão suave, e dosado com um abraço.
Silêncio.
A gente ficou em silêncio um pouco. E mais um pouco... A essa hora eu já tinha falado porque a tinha chamado, revelei o que eu sentia. E eu tinha certeza que podia beijá-la ali que nada aconteceria. Ela não recusaria, com certeza não recusaria. Mas aí eu teria que pensar depois, no que eu havia a obrigado a fazer, nas circunstância em que estava. Não era justo, pois ela estava feliz já com ele. Deixá-la confusa, ou carregando um peso desses. Foi extremamente difícil não segurá-la como se devia naquele frio, mas simplesmente ofereci minha jaqueta a ela. Alguns instantes antes de ela dormir, ainda lembro de olhar para todos os lados, com medo de que algum ladrão chegasse ali perto. Eu seria seu vigia, para que ela dormisse tranquila. Mas não senti seus lábios, de modo algum.

Eu acordei com uma lágrima.