Estou sentado tomando um café, vejo as pessoas passarem, indo e vindo com sua pressa para pegar o trem. Algum individuo está nos armários da estação, pegando alguma coisa. Não lembro o que era, apenas que brilhava muito.
Eu era quem escolhia as vítmas, talvez pela cara de descuidadas, talvez pelos movimentos espaçosos que faziam, gerando grandes brechas; um cara gordo que gesticulava bastante quando falava estava passando, e era a presa perfeita: como era corpulento, vestia um enorme casaco de lã contendo alguns vários bolsos, era fácil de esbarrar num sujeito daqueles (o que acontecia com várias pessoas mesmo sem querer) e ele vestia um chapéu peculiar. Não era um panamá, ou um fedora encontrados aos montes pelas cabeças vistas na estação; não, este vinha com as duas iniciais 'H.L.' bordadas sutilmente. Ao que vi do meu posto e pelo olhar de meu parceiro, aquele chapéu era uma legítima peça da alfaiataria real da Hungria, um Hugo Liudolfing do século XVIII. E valioso, muito valioso.
O fato de ele andar à mostra com uma raridade daquelas (mesmo que ninguém prestasse atenção aos detalhes) me fazia imaginar que dentro dos bolsos do casaco havia coisas melhores ainda.
De repente o cara dos armários deixou um relógio cair. Aquilo reluzia mais que a própria luz, e se ele quis ser discreto, não conseguiu. Mesmo assim, o gordo viu o relógio caindo, e como o nobre que era, devolveu para o moço. Opa, seu relógio caiu, cuidado hein amigão, na próxima não sei se devolvo hein. Risadinhas de gente rica. Eu chego, esbarro nele, peço desculpas e pronto, tenho algo em meus bolsos que pertencia ao gordão. Pertencia, agora é meu e do cara do armário, a famosa isca.
Sempre trabalhei em duplas em pequenos golpes, e nunca tive problemas... quanto menor a operação, menos espaço para falhas, menos gente pra coordenar, e assim vai. Mas ultimamente eu comecei a fazer uns trabalhos maiores, e de quadros, vasos, escultaras foi onde cheguei onde estou: no escritório do detetive mais fodido que eu conhecia, o cara que sempre esteve na minha cola, apenas dois passos atrás de mim, e agora, ele era o esperto da história.
Daqui a alguns minutos eu seria transferido para o presidio na cidade ao lado, e atravessaria as montanhas rumo à prisão em um furgão da polícia local. Eu seria escoltado por dois Lamborghinis e um carro dos oficiais, e realmente foi um toque de Houdini com Copperfield quando eu consegui passar do furgão para o lamborghini da frente sem deixar que os oficiais percebessem. O furgão estava em uma das subidas mais íngremes e começou a balançar de um lado pro outro, depois, parece que tentou fugir da rota planejada e depois começou a acelerar muito. O Gallardo de trás e o carro dos oficiais cercaram o furgão e na frente eu só continuei dando cobertura. Quando todos paramos para ver o que estava acontecendo ali dentro, acelerei ao máximo o carro que eu dirigia, e os velhos e senis oficiais perceberam o acabava de ocorrer: eu havia dado um golpe neles também. Em instantes o maldito detetive que tinha me prendido assumiu a direção do único carro bom que restara e saiu em perseguição ao meu. Quando já estávamos quase no cume da montanha, os dois paramos perto de uma linha do trem que havia ali.
Nao ficamos falando muito, eu só agradeci pela ajuda e ele falou para eu calar a boca. Justo. Então, quando o trem passou, subi nele com a sutileza de Mary Poppins e prosegui viagem até atravessar a fronteira, onde eu já não era mais problema daqueles bastardos de há pouco.
Desembarcando na plataforma e rumo à saída da estação, vi um cara nos armários da estação praticamente jogando um objeto chamativo em minha frente. Olhei para o lado e ali estava seu parceiro vindo em minha direção, e com a minha cara os dois já perceberam o erro que tinham cometido. Apenas virei para o cara dos armários e balancei o indicador negativamente, dizendo 'ã-ã, não'. Passei pelo parceiro dele e saía da estação, quando o sonho parecia voltar para começo.
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